terça-feira, 3 de julho de 2012

A Rainha das Botelhas (de Alma Welt)


Secretamente rainha coroei-me,
Auto-proclamada entre as paredes
Deste velho casarão onde criei-me
E solitária eu reino, como vedes.
Senhora e dona de minha fantasia
A mim permito os mais amplos poderes
E os exerço em nome da Poesia
E sua legião de estranhos seres.
Bah! Abanem a cabeça e riam baixo,
Mas garanto que ao passar entre os peões
Tocam eles os chapéus de barbicacho...
E se Infanta já tinha o meu lugar,
As botelhas que vivem nos porões
Enquanto desço as percebo prosternar...

terça-feira, 26 de junho de 2012

SONETOS DO VINHO, DE ALMA WELT



Coletânea de sonetos da poetisa gaúcha, que abordam o tema do vinho e do vinhedo de sua estância pampiana. Seu avô, o "boche" Joachim Welt foi um pioneiro na plantação de uvas para vinho em pleno Pampa, tradicionalmente região de gado, charque e mate. Até então os vinhedos do Rio Grande do Sul se limitavam à região serrana, de Garibaldi, Bento Gonçalves...

A numeração corresponde à posição em que estavam no blog Sonetos Pampianos da Alma, de onde foram extraídos

Retornem, vinhos meus! (de Alma Welt)


Ah! Voltem, sim! Retornem vinhos meus!
Novamente encham de riso o casarão,
Como naqueles leves tempos mais ateus
Ou mais plenos de deuses que se vão


Com a louca juventude que os mantém
Mas fugazes se esvaem como os sonhos
Deixando aquele gosto que provém
De memoráveis temperos mais bisonhos.

Pois aqueles nossos vinhos eram leves
Sem o peso da cruel realidade
Que tornou as nossas vidas tão mais breves

E com este travo amargo de carência
No contrapé do gosto da saudade,
Sonâmbulos de nossa permanência... 

domingo, 20 de maio de 2012

Máscara Báquica (de Alma Welt)

Máscara Báquica- desenho de Guilherme de Faria, 1966, acervo do Banco Central do Brasil 

 Máscara Báquica (de Alma Welt)

Na Vindima máscara eu sempre uso
Coroada c’umas folhas de parreira
E a peonada aqui acha confuso
E a custo aceita a brincadeira

E demora a saudar o Baco em mim
Pois a patroinha ainda vigora
Com o respeito que me cabe assim,
Que o mito da princesa corrobora.

Mas durante as festas me embriago
Como ninfa antiga e, pois, bacante,
E na minha imagem faço estrago

Que no dia seguinte recomponho
Com o passo meio aberto, claudicante,
Rezando pra que tenha sido um sonho...
 

quinta-feira, 8 de março de 2012

A Bacante (de Alma Welt)


Bacante- desenho de Guilherme de Faria, 2012, 75X52cm

A Bacante (de Alma Welt)

Durante os nossos festejos da Vinha
Coroada das folhas de parreira
No trono, uma espécie de cadeira
Pra saudar os belos frutos de gavinha

Começo por provar meu próprio vinho
O que da exaltação é o segredo
Quando então o próprio deus eu adivinho
Entre os peões que lidam no vinhedo.

Bá! Serei franca: eu me embriago
Porque nesse dia pelo menos
Cessa o requinte do comedido trago

Pois Dioniso bêbado acha graça
E me quer rolando sobre os fenos,
Sua bacante nua e tão devassa...