domingo, 5 de setembro de 2010

Os vinhos da herdeira (de Alma Welt)
812

O sonho dos avós em mim habita
Transubstanciado na Poesia.
O que neles foi safra bendita
Maturou em mim e se anuncia...

Oriundos de um campo mais ao fundo,
Dormindo no silencio de outras caves,
Os vinhos-versos vêm para este mundo
Com estes outros travos, outras chaves,

Mas ainda com as cores do rubi
E talvez com delicado e igual buquê,
Atributos que por certo não esqueci,

Pois das uvas de campos tão vizinhos,
Em lagares que ninguém tampouco os vê,
Piso e sangro os meus melhores vinhos...

(sem data)


A Alma do meu vinho (de Alma Welt)
(3)

Doces manhãs da minha juventude!
Embora ainda viva um seu momento
Já o sinto afastar-se em pensamento,
Já não as posso sentir como antes pude...

Outrora eu vi meu corpo se integrar
No lago e na campina sob as chuvas,
Mas foi ele consagrado em meu lagar,
Que rolei nua no mingau das minhas uvas

Que quando vazadas nos tonéis
Me tornariam vinho e sua canção
Para alguns cúmplices fiéis,

E me lembro que este tinto foi servido
Com malícia especial por meu irmão
Brindando a todos com o vinho proibido...

06/12/2006



Quando volto ao casarão (de Alma Welt)
16

Quando volto ao casarão após a lida
É que passo a ter do mundo um panorama,
A olhar a vida aqui da minha cama
E sentir a minha alma agradecida.

A vista do jardim... além, o pampa,
Eis a minha verdade, ah! o pomar,
O bosque, a cascata, ali a rampa
Que leva até o vinhedo e o lagar!

O ser humano, eu vejo, se debate
Perplexo, na vida e no mundo
Procurando a superfície e não o fundo,

E percebo que o homem só suporta
O rumor e agitação, sem que se farte,
Pelas paredes, quatro, além da porta...

5/12/2006

Nota
Este soneto foi lindamente musicado pelo João Roque, vocalista, violonista e compositor, lider da extinta banda Risses, de São Paulo, atualmente estudando Letras na USP, por influência da Alma. Excelente músico, João continua compondo e já colocou melodias e harmonias em pelo menos dez poemas e sonetos de Alma Welt. Temos projeto de gravar um CD com essa parceria.


O concerto dos pampas (de Alma Welt)
(29)

Quando cavalgo pela minha campina
Eu me sinto num concerto muito fino
Não como da orquestra a maestrina
Mas como seu primeiro violino

E percebo as ondas de harmonia
Pelas pautas onduladas das coxilhas
E como contraponto as maravilhas
Que produzem a secreta melodia...

Flauteados pelo coruscante orvalho
Os graves umbuzeiros e um carvalho
Com as aves como abelha sobre a flor

E regendo, meu avô, qual Karajan,
Cujo vinhedo não seria glória vã
Mas um gran-finale de esplendor!

16/12/2006

Amores como os vinhos (de Alma Welt)
(33)

Amores como vinhos envelhecem
Guardando aquele travo que perdura,
Mas ficam mais nobres quando esquecem
A dor,imperfeições e a amargura.

É preciso que lembremos dos amores
Como a safra ideal da juventude,
Fiéis aos nossos gostos e pendores
E àquela sensação de plenitude.

Amassadas sob os pés apaixonados
As uvas fomos nós e quão sangramos
Antes de sermos sonhos decantados

Nas garrafas ainda sem um nome,
Sem a cor, o buquê e o renome,
Enquanto nossos sonhos maturamos...

18/12/2006


Explode, ó beleza... (de Alma Welt)
(66)

Explode, ó beleza, na campina!
Quero chover, plantar e germinar...
Ser as ervas, as flores, a ravina
Por onde flui o regato para o mar!

Sou a alma, eu sei, desta porção
Do pampa que me viu desabrochar,
Ser mulher-poeta e sua canção,
E ser guria feita para amar

E que por ser novilha e amazona,
Pequena fêmea aérea, estabanada,
Tanto gaúcho sonhava ver na zona,

Mas que, prenda da vinha, a peonada
Viu crescer, fluir nua e mergulhar
Em claras águas e no sangue do lagar...

30/12/2006

O segredo do meu vinho (de Alma Welt)
91

Ali onde a colina encontra a lua
Como imenso sonho branco a flutuar
Contra a nave em silhueta do lagar,
Quanto sobre as uvas me pus nua!

Invocar Dioniso é o caminho
E deve ser ritual inusitado:
Somente o meu corpo despojado
Pode chamar as forças do meu vinho.

Então eu sento no sangue do lagar
Com meu sexo também prestes a sangrar...
Eis revelado o segredo do meu tinto.

Não me venham dizer qu'isto é "de demos",
Não percebem o buquê como é distinto?
Ao aroma e cor da Vida, ah! brindemos!

05/01/2007


A casa e o lagar (de Alma Welt)
(125)

Emergindo da planície encoxilhada
Como nave entre ondas e revezes
Mas onde fui feliz no mais das vezes
Se ergue o casarão, minha morada.

Aqui eu fui guria, não piá,
Pois nasci no caminho ao Deus-dará,
Na margem de uma estrada, sem estorvo
Entre Blumenau e Hamburgo Novo.

Mas à grande sombra dos avós
Joachim e Frida, godo e feiticeira
Que plantaram a semente da videira

E construiram nova nave, o grão-lagar,
Para fazer nosso vinho, muito após,
Em seu sangue me haveria de banhar.

16/01/2007


A Saga da Alma (de Alma Welt)

(147)

No meio de esparso arvoredo
Se ergue a imensa alvenaria
Que foi um rincão de vacaria
Antes de ser a sede de um vinhedo.

Meu avô foi pioneiro co'esta vinha
Quando aqui chegou como um intruso,
Um boche, um godo, um abstruso
Com seus dois metros de gavinha

Que se agarrava a tudo pra subir
Ainda mais alto, eu suponho,
Para um perfeito vinho produzir...

E restou do que a terra traga,
Suores, sangue, risos, sonho:
Esta Alma pra cantar a sua saga.

16/01/2007


A Infanta (de Alma Welt)
(148)

Muito viajei pelas cidades
Do mundo real e as da mente,
Europa e os reinos do Oriente
E os das lendas de antigas deidades.

Mas o Pampa, o Pampa é minha raíz...
Aqui vou mais longe ao galopar
E perco-me no mundo por um triz
E encontro meu espaço em pleno ar!

Bravos gáutchos* montados e em seus zelos
Tocam seus chapéus com os dois dedos
Ao verem-me correndo tão sem medos,

Infanta de meu reino, ou já rainha,
Meio louca, eu sei, soltos cabelos,
Mas ao passar saudada pela Vinha!

18/01/2007

Nota da editora:

* gáutchos- Fonético de "gauchos" sem acento, os gaúchos da fronteira já designados pela expressão castelhana.

Alma realmente galopava nua e sem sela, "escanchada" no seu "pingo", com os longos cabelos ruivos ao vento, quando sentia a pradaria deserta. Mas a verdade é que foi muitas vezes avistada nessas condições, e pela sua beleza não fora até então desrespeitada, apenas tocavam seus chapéus, e estava virando uma lenda viva de cunho meio folclórico em nossa região. Agora que está morta, os peões continuam a vê-la assim, galopando, muito branca como sempre, mas agora espectral... e consideram-na uma visão auspiciosa.


Meu segredo (de Alma Welt)
(160)

No poço da minha cascatinha
Eu desde guria nua me banhei
Em volúpia, e nem sequer olhei
Pra certificar-me estar sozinha.

Então uma bela tarde aconteceu
Do meu vestido branco ser roubado
Por alguém talvez muito engraçado
Ou que queria possuir algo de meu.

E eis que fui pelada até o vinhedo
Pra colher quatro folhas, que ostentava
Crendo assim ocultar o meu segredo

Que era a nudez total, primeva,
Pois o falso pudor me preservava
Como já o fizera à pobre Eva...

07/01/2007


A Herança, ou Na cabeceira do avô (de Alma Welt)
(180)

Meu avô era homem de palavra
E a tinha só na força concentrada,
Toda nervos, olhar, e aquela trava
Na maxila tensa e pesada.

De outras poucas palavras, nada terno
Era incapaz de uma carícia,
Persistente e tenaz como se eterno,
E totalmente isento de malícia.

Mas foi o velho boche grandalhão
Que me chamou à cabeceira bem no fim
E segurou com brandura a minha mão.

Depois tocando leve a minha testa,
Disse piscando o olho para mim:
"Alma, fiz o vinho, faça a festa."

13/01/2007

Nota da editora:

Emocionou-me este soneto primoroso, que considerei de imediato mais uma obra-prima da Alma, e que me fez lembrar do velho Joachim Welt, que Alma tão magistralmente descreveu no soneto, e que eu não sabia ter doado tão bela herança em poucas palavras para a verdadeira herdeira do vinhedo de sua vida. (Lucia Welt)


O Vinho da Alma (de Alma Welt)
(182)

Se me pergunta o mundo o que quero
Com tanto sonetar, tanto dizer,
Se não posso um pouco me conter,
Partir meu dia, assim, do ponto zero;

Viver o hoje sem interpretá-lo,
A hora e o minuto simplesmente,
Como uma ampulheta ou um gargalo
A gotejar o vinho ou a semente;

Eu respondo que assim como me vê,
Escrever é ver, aurir e degustar
A vida como um vinho em minha boca

E como um esmerado sommelier
Cuspir somente se for pra declarar
O prazer da dose, que é tão pouca...

22/12/2006

Resumo da ópera (de Alma Welt)
(189)

Sob o casarão por qual lutava
Foi por mim e meu cunhado descoberta
A grande adega, ao ser aberta
Uma parede secreta que girava.

E foi-nos revelado um tesouro
De toda uma safra dos avós
Que ficara maturando no escuro
Desconhecida de meu pai, de todos nós

Que lutávamos pela casa e os vinhedos
E todos estes belos arredores,
Quando já faltava a temperança.

E foi desta senzala e seus segredos
De infâmia, injustiça e seus terrores
Que surgiu novamente a esperança.

04/12/2006

Nota
Este soneto é um resumo do entrecho básico do romance A Herança, em que Alma contou a sua luta para salvar a nossa estância e seu vinhedo. Assolada por dívidas tivemos prestes a perdê-la quando se instalou uma disputa entre Solange e Geraldo, de um lado, e Alma, Rôdo e eu de outro. O soneto se refere a um incrível momento(real como tudo o que a Alma escrevia)em que ela descobriu, por ter vigiado Alberto, o marido bêbado de Solange, que este descobrira uma passagem secreta da nossa adega, uma parede giratória que dava para outra adega muito maior, imensa, antiga senzala desconhecida por nós sob o casarão, onde estava depositada a safra secreta do melhor vinho dos nossos avós, e que salvaria a estância de suas dívidas, não fosse... Bem, os leitores terão que esperar o romance da Alma ser publicado em livro para saber o que aconteceu nessa saga real e ao mesmo tempo romanesca. (Lúcia Welt)

Noturno (de Alma Welt)
(197)

Entre o casarão e o vinhedo
Está o jardim dos meus amores
Que de dia acolhe o folguedo
De guris e gurias entre as flores.

Mas nele eu navego em noite cálida
Sob a luz de uma lua espectral
Refletida e tornando-me mais pálida
Como pequena gôndola irreal

Que singra entre touceiras prateadas
Deixando rastro: cintilantes vagalumes
Companheiros de noturnas caminhadas

Sob a guarda do Negrinho e as Três Marias
Que ainda me protegem dos queixumes
Dos sonhos mortos e das fantasmagorias...

15/12/2006

A Herança (de Alma Welt)
(206)

"Minha Alma, tu és a minha herdeira,
Aquela a quem doei minha cultura
Angariada nos livros, e és a futura
Poetisa-musa estancieira"

"A quem caberá ser e irradiar
O saber herdado e a justiça
Que é a conseqüência do pensar
Correto, claro e sem cobiça."

Assim falou meu pai, que eu chamo Vati,
Werner Welt, o grande pianista
Que herdara o que já fora do mate

E então como vinhedo produtivo
Lhe permitira com zelo tal cultivo
Da Alma e sua vinha ilusionista...

12/01/2007


O sangue da terra (de Alma Welt)

231

Vati, ó Vati, leva a tua filha
Contigo em tua sela às pradarias.
Se vais levar sosinho uma novilha
Por quê razão a mim não levarias?

Queres que eu seja o fino espelho
De tua alma cantora e pianista,
Mas também carregas esse relho
Herdado do avô boche, o "arrivista"

Que na verdade, bom agricultor
Já lá nas suas terras dos Sudetos
Não merecia tal suspeita e rancor

Pelas uvas que plantamos desde então,
Pois que agora nos vêem, filhos e netos,
Pisando o novo sangue deste chão.


03/04/1999


Nota
Este soneto recém-encontrado na arca da Alma, e que pela data foi escrito quando o nosso Vati ainda era vivo, relembra a discriminação sofrida por nosso avô, o "boche",
que, visto como um intruso ou "arrivista" andava sempre com um rabo-de-tatu na mão e veio introduzir um vinhedo estranho, na verdade pioneiro, numa terra tradicionalmente de gado, charque, mate... e lutas gloriosas. (Lucia Welt)


Vem, meu leitor (de Alma Welt)
235

Vem, meu leitor, voa comigo
Por sobre a minha estância encantada.
Há muito a mantenho iluminada
Pelos melhores versos que consigo.

Sei que podes vê-la em tua mente
Sendo, pois, meu hóspede querido,
Levar-te-ei pelo jardim florido
E depois talvez a coisa esquente

Quando me encontrares no pomar,
Logo no vinhedo e no lagar,
Depois subindo ao sótão de noitinha

Pra veres onde flui minha poesia
Se achaste minha jornada comezinha:
Noites nuas perpassadas de magia...

07/06/2006

RIP* (de Alma Welt)
237

Vem por aqui, Galdério, logo à frente
Vou te mostrar o que encontrei:
Uma cruz estranha que nem sei
Se é cristã ou coisa diferente.

Vê, gravada nesta laje, aqui, assim,
Algo muito gasto está escrito.
Será o túmulo violado e proscrito
Do antigo estancieiro Valentim?

RIP está gravado e se percebe,
O resto é posterior, mal redigido,
E suponho por alguém que ainda bebe

O vinagre do que, mal digerido,
Não sei, Galdério, mas o sinto,
Deixou seu travo em nosso vinho tinto.


(sem data)


Nota
* RIP- Iniciais do mote latino "Requiescat in Pace" (Repousa em paz), que era inscrito antigamente em alguns túmulos.

A recorrência nos Sonetos Pampianos da temática referente ao estancieiro Valentim Ferro, que vendeu a estância (depois chamada Sta Gertrudes) para o nosso avô Joachim Welt e em seguida se suicidou enforcando-se numa trave do sótão do casarão, faz-nos perceber como esses fatos assombravam o espírito sensível (e até sugestionável) de minha irmã, que considerava, percebe-se, que havia uma culpa persistente pesando sobre a nossa família, que plantou o seu vinhedo sobre esse túmulo amargo. (Lucia Welt)


Vôo sobre o reino (de Alma Welt)
243

Pelas campinas mágicas do Pampa
Desta Alma em vôo permanente
Sobre este rincão da minha mente
Que é como um mapa ou fina estampa

Do mundo que a mim parece vário,
Eu percorro meus domínios qual rainha
Mas não como aquela num cenário
Montado pela corte tão mesquinha*.

Eu sei o que há além de cada rampa
De coxilha, por trás de cada olhar
De peão que navega o mar de guampa

E dos olhos sombreados no vinhedo
Que sob o lenço no chapéu pra não voar
Sonham lances improváveis de amor ledo.


09/11/2006

_____________________________________________


Nota
*..."montado pela corte tão mesquinha"- Alma se refere ao episódio "histórico" (talvez lendário) da Imperatriz Catarina II da Rússia (1729-1796) que manifestando desejo de conhecer o seu Império, seu ministro e cortezãos montaram, sem que ela percebesse, cenários de tapumes de belas aldeias ao longo da estrada que ela percorreu sem sair da sua carruagem, com camponeses (contratados ou sob ordens) sorridentes e bem vestidos em seus coloridos trajes folclóricos, atirando flores e acenando para ela entusiasticamente. Não é preciso dizer que Catarina voltou eufórica para o seu palácio, certa de que seu reino era feliz e ia às mil maravilhas. (Lucia Welt)

Canto da lua pálida (de Alma Welt)
257

Vai a vaga lua após as chuvas*
No meu pampa como barca solitária,
Nave fantasma, revolta e passionária
Em farrapos sobre mar das minhas uvas*.

Então saio pro jardim, vou ao vinhedo
Ao encontro da nave que me anima
A deixar-me lunar em seu segredo
Para saber o fim que me destina

Pois com meus alvos braços estendidos
Para o alto clamo a indagação
De quais os meus sinais e seus sentidos

E antes que a clareza se me esvaia,
Meus joelhos dobram e vou ao chão
Enquanto a lua pálida desmaia.*

17/01/2007



Nota
*Vai a vaga lua após as chuvas- Percebe-se aqui os ecos do título do filme magnífico de Kenzo Misoguchi, de 1953, "Contos da lua vaga após a chuva", que a Alma viu em DVD.

* Nave fantasma, revolta e passionária/Em farrapos...- Imagem maravilhosa que sugere uma nave farroupilha (em farrapos ) como a de Garibaldi, navegando sobre o mar das uvas do nosso vinhedo

*...a lua pálida desmaia- Alma quer dizer que a lua desfalece para não responder ao ser questionada pela Alma sobre o seu destino iminente.
(Lucia Welt)


Arcádicas vigílias (de Alma Welt)
380

Espectros arcaicos desta estância!
Nas noites das vigílias gauchescas
Eu os vejo em torno desde a infância
A rodar e a dançar chulas grotescas.

Mas eu os saúdo e a eles brindo
Com o vinho dos avós para aplacá-los
Ou mesmo seduzi-los, e até rindo
Quando estão a exibir imensos falos.

E em noites de luar desmesurado
Vago com eles alva e seminua
Pela relva grisalha do meu prado.

E se da prenda xucra e sem dono
Em malícia o povo o mito perpetua,
Em arcádicas orgias me abandono...


(sem data)

O espírito do vinho (de Alma Welt)
374

O ser que vive em nossa adega
Vela o eterno sonho desse ninho,
Brinca de deixar a alma cega
E nomeia-se “o espírito do vinho”.

Eu sei, ele mesmo me tomou
E me fez aos quinze desnudar-me,
Tateando quando a luz aqui faltou
Para ir ao sótão e entregar-me.

Depois de cada festa pampiana,
Lá estava sussurrando do meu lado,
Instando-me a correr esse perigo:

Eu tinha que passar pelo inimigo,
O sono leve da matrona Açoriana,
Para em risos colar no irmão amado...

(sem data)


As palavras vivem (de Alma Welt)
371

As palavras vivem e me constroem,
Sou filha delas, mito e criação;
Afinal menos letra e mais canção
Já não sei se me nutrem ou se doem...

Pintei o meu mundo com meus versos
Desde o nascimento numa estrada
Até os vãos momentos adversos
Em que tive minha candura violada.

Mas quanto vi crescer este meu Pampa
Interior, como o reflexo do espelho
De um cenário real e não de estampa:

Esta casa, seu jardim e meu pomar,
O vinhedo entre o roxo e o vermelho
Do sangue desta terra em meu lagar!

15/01/2007


O vinho e o Graal (de Alma Welt)
347

Percorrendo em vigia meu vinhedo
Tive linda visão e inusitada:
Um cacho isolado qual segredo
Pois que sua cor era dourada.

"Um cacho de ouro!"- exclamei.
"Galdério! Vem ver o que encontrei!
Vê se é uma praga, anomalia
Que possa destruir toda a valia

Da safra e também do nosso esforço!
É dente de pirata ou belo corso?
Deixo contigo juízo e decisão."

“Alma”- respondeu sábio o peão-
“Então não vês que o ouro é o sinal
De que temos o vinho e o Graal?”

(sem data)

Nota
Soneto de acentuado pendor simbolista. E me lembrei de que na época, eu morando em Alegrete, ouvi comentários sobre o espantoso cacho dourado no meio do vinhedo, que se tornou uma das lendas da Alma e de nossa estância. (Lucia Welt)

Profissão de Fé (II) (de Alma Welt)
316

Ungida no vinhedo dos avós,
Eu sinto que estou legitimada
E desde bem guria consagrada
A dar-me como vinho a todos vós.

Eis-me aqui, poetas e leitores
Nua, branca e bela, sem pudores
Com meus secretos filtros e perfumes,
Há muito devassada pelos lumes

Que lanço sobre mim, ó meus senhores!
Pois já nada escondo e tudo sou
Como a prerrogativa dos atores

E dos poetas, performers e cantores
Que sobem no palco e dão o show
Para glória do humano e seus humores..


08/01/2007

Balanço da Vida (de Alma Welt)
314

Lancei meu nome aos quatro ventos
Desde o Pampa a plena pradaria,
Levei minhas notícias de Poesia
Nas pequenas aventuras e eventos

Que me souberam assim universais,
Pois homens são um só, o mesmo medem
A oeste, norte, sul... leste do Éden,
Quanto mais fiéis aos seus quintais.

E assim vi minha Vinha prosperar
E as ramas do vinhedo me cercarem
Com os cachos sumarentos a brilhar.

Mas sei também meus poemas como hera
Cujos ramos pressinto se alastrarem
Nas paredes da Casa que me espera...

17/01/2007


Exorcizando (de Alma Welt)
291

Matilde veio logo me avisar
Que uma sombra rondou o casarão
E parou de frente ao nosso sótão,
Depois partiu no rumo do lagar.

"É o Valentim!" ela adverte-
"Que olhou para onde se enforcou,
Voltou para onde o vinho verte
E ali novamente se afogou."

E eu, a quem não custa espicaçar,
Saí no temporal e fui às uvas
Para o tal fantasma exorcizar:

"Perdoa, a ti me dou, tardia embora,
E me desnudo sob o frio de tuas chuvas
Que são as tuas lágrimas de outrora!"



Sobre a obra
Coletânea de sonetos da poetisa gaúcha, que abordam o tema do vinho e do vinhedo de sua estância pampiana. Seu avô, o "boche" Joachim Welt foi um pioneiro na plantação de uvas para vinho em pleno Pampa, tradicionalmente região de gado, charque e mate. Até então os vinhedos do Rio Grande do Sul se limitavam à região serrana, de Garibaldi, Bento Gonçalves...

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