segunda-feira, 14 de novembro de 2016

Uvas maduras ou A Vinhateira conformada (de Alma Welt)

E eu, sozinha, clamava no deserto
Como profetisa de mim mesma,
Na verdade, morava ali bem perto
No casarão, onde sou a abantesma.

Morreu primeiro minha mãe depois meu pai,
Minhas irmãs casaram e se mudaram
Os amigos rindo foram-se ao Hawai
Com suas pranchas e nunca mais voltaram.

Bah! Bem quis levar-me o Rodo, meu irmão,
Com ele na Ferrari pela estrada
Pra ser trunfo derradeiro, ali à mão...

Mas depois de uma ou duas aventuras,
Aqui estou eu, vinhateira conformada,
Minhas uvas um tanto mais maduras...

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14/11/2016

sábado, 23 de julho de 2016

Metáforas (de Alma Welt)

                                               O estancieiro (o avô da Alma)- água-forte de Guilherme de Faria, 1968

Metáforas (de Alma Welt)

"Não te vejo como parte da manada",
Disse um dia meu avô estancieiro
Dando na própria perna uma lambada,
De chibata na mão o dia inteiro...

"Mas que manada?" Pensava eu, guria
Solitária, saltitando na coxilha
Com as sílabas nos dedos da poesia,
Minhas únicas reses numa milha...

Mas então percebi o duplo mundo
Que uma simples metáfora destampa,
Comigo num espelho mais ao fundo.

As reses, na verdade, eram as uvas,
Eu, a vinha solitária neste Pampa,
Que meu avô podava, mas com luvas...

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22/07/2016

domingo, 24 de agosto de 2014

O vinho e a rolha (de Alma Welt)


A vida é construída de memórias,
Segundo a segundo, e remorsos
Não das singelezas mas das glórias
Relativas apesar de mil esforços...

Quanto a mim, não busquei podres poderes,
E muito menos o fruto da ambição
Que atrai mais os tolos, fúteis seres,
Que talvez negligenciem o coração...

Mas aqui não ficarei deitando regra,
Que não tenho de sábia a veleidade
Que a própria sapiência desintegra...

Mas expresso ou canto minha escolha
E portanto um tempo e sua saudade,
O tempo que era o vinho e não a rolha...

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

A Última Vindima ( de Alma Welt)


 
As uvas estão prontas para o vinho
E eu para pisá-las no lagar.
A safra será boa, eu adivinho,
Pois o ano esqueceu-se de gear.


Mas estarei pronta pro destino?
O fim que se aproxima é bem vindo?
Não posso nem ouvir toque de sino
Que o coração me vai diminuindo...


E eu choro e me lamento na vindima
Quando deveria estar sorrindo
No meio destas uvas ou lhes em cima

 
 Com a disposição de outrora e alegria
Quando o sonho do meu vinho era lindo
E de um cálice sinistro eu não bebia...

terça-feira, 3 de julho de 2012

A Rainha das Botelhas (de Alma Welt)


Secretamente rainha coroei-me,
Auto-proclamada entre as paredes
Deste velho casarão onde criei-me
E solitária eu reino, como vedes.
Senhora e dona de minha fantasia
A mim permito os mais amplos poderes
E os exerço em nome da Poesia
E sua legião de estranhos seres.
Bah! Abanem a cabeça e riam baixo,
Mas garanto que ao passar entre os peões
Tocam eles os chapéus de barbicacho...
E se Infanta já tinha o meu lugar,
As botelhas que vivem nos porões
Enquanto desço as percebo prosternar...

terça-feira, 26 de junho de 2012

SONETOS DO VINHO, DE ALMA WELT



Coletânea de sonetos da poetisa gaúcha, que abordam o tema do vinho e do vinhedo de sua estância pampiana. Seu avô, o "boche" Joachim Welt foi um pioneiro na plantação de uvas para vinho em pleno Pampa, tradicionalmente região de gado, charque e mate. Até então os vinhedos do Rio Grande do Sul se limitavam à região serrana, de Garibaldi, Bento Gonçalves...

A numeração corresponde à posição em que estavam no blog Sonetos Pampianos da Alma, de onde foram extraídos

Retornem, vinhos meus! (de Alma Welt)


Ah! Voltem, sim! Retornem vinhos meus!
Novamente encham de riso o casarão,
Como naqueles leves tempos mais ateus
Ou mais plenos de deuses que se vão


Com a louca juventude que os mantém
Mas fugazes se esvaem como os sonhos
Deixando aquele gosto que provém
De memoráveis temperos mais bisonhos.

Pois aqueles nossos vinhos eram leves
Sem o peso da cruel realidade
Que tornou as nossas vidas tão mais breves

E com este travo amargo de carência
No contrapé do gosto da saudade,
Sonâmbulos de nossa permanência...